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Publicado em 14/08/20 às 09:13:00

A morte silenciosa dos rios do Cerrado - Parte I

A morte silenciosa dos rios do Cerrado - Parte I
Foto - Renato Gusmão

 

Altair Sales Barbosa

Dr. em Antropologia e Geociências

Smithsonian Institution de Washington DC. USA

Pesquisador do CNPq.

Membro Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás

 

De maneira geral, ou bem específica como é o caso dos cursos d’águas do oeste da Bahia, sul do Piauí, noroeste do Tocantins, Maranhão e norte de Minas, as águas do cerrado padecem de um mal semelhante a diabete escondida ou disfarçada, que quando se manifesta, dificilmente o portador escapa com vida.

No caso da diabetes, a doença vai  minando paulatinamente  alguns órgãos vitais, terminando com a falência destes. A amputação de membros é apenas uma das manifestações, mas a doença ataca rins, coração e sistema nervoso.

A diabetes pode ser considerada uma doença crônica que tem como causa a falta de produção de insulina no organismo, que   é um hormônio controlador da glicose nas correntes sanguíneas. Numa comparação rudimentar entre a diabetes e os rios do cerrado a insulina que mantém o equilíbrio dos rios, tem origem nos  lençóis subterrâneos, que são fontes de águas  armazenadas nas rochas porosas sedimentares, que ao longo de milhões de anos foi sendo depositada na região, como é o caso do arenito Urucuia em Minas,  oeste da Bahia, noroeste do Tocantins e o arenito Poty do sul do Piauí e Maranhão. Quando a fonte de insulina é insuficiente os cursos d’águas superficiais entram em desequilíbrio, que se manifesta de diversas formas. O desequilibrio altera a dinâmica do rio, como se tivesse afetado o seu sistema nervoso, aumenta a turbidez da água, como se seus rins deixassem de funcionar, além do que, o veneno utilizado fica no solo e quando carreado para o leito do rio, afeta seu sistema vital, fazendo desaparecer grande parte de sua fauna. A ausência de água nos lençóis subterrâneos provoca a  amputação de vários membros integrantes da bacia. Essa amputação inicia com a migração das nascentes até o desaparecimento total de muitos cursos d'água. Este é o início do fim e se conclui com a morte do rio e todo seu entorno, incluindo a desestruturação de comunidades humanas, através da desterritorialização.

 Nunca compreendi a atitude de certos funcionários públicos,  que utilizando  de imagens de satélite argumentam que 40% ou 50% de cerrado ainda estão preservados.  A imagem de satélite  para esta finalidade, mostra  apenas o dossel da vegetação arbórea restante, não mostra a vegetação que constitui os estratos inferiores do cerrado, incluindo a vegetação rasteira, constituída basicamente por gramíneas, com uma grande variedade de capins nativos e bambuzinhos, que na realidade exercem uma função ecológica vital para cerrado, pois é o tipo de vegetação que retém as águas das chuvas que lentamente vão abastecer os lençóis subterrâneos e formarem os aquíferos - a insulina dos rios. Fico a indagar: A quem interessa  esse tipo de informação descalçada de uma visão sistêmica do cerrado. Será que é utilizada para justificar mais ocupações intensivas, ou reflete  simplesmente falta de conhecimentos?

Não entendo também, ou talvez não queira entender a visão obtusa de certos profissionais liberais, funcionários públicos ou free-lancers contratados para falarem que a vazão dos rios tenha diminuída em função de mudanças climáticas. Ora, todos nós que estudamos o rol das ciências da evolução, incluindo estratigrafia, climatologia, sedimentologia, sabemos que mudanças climáticas não ocorrem bruscamente, demandam centenas, às vezes milhares de anos para um novo padrão se estabelecer, o que pode acontecer é um período de estiagem mais prolongado, em decorrência de fatores naturais, tais como circulação marinha, que afeta a circulação atmosférica, resfriamento ou aquecimento das águas oceânicas, ação dos ventos solares, ou mesmo das correntes de convecção existentes no Manto da Terra. Porém, são fatores isolados e isoladamente não estabelecem padrões, a não ser que pendurem por um longuíssimo tempo.

(continua)

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