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Publicado em 12/01/21 às 10:54:00

Água nossa de cada dia - Parte I

Água nossa de cada dia - Parte I
Foto André Monteiro

 

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa

Doutor em Antropologia / Arqueologia e Geociencias

Pesquisador do CNPq

Para entendermos as diversas questões ligadas à diminuição drástica da vazão da maior parte dos rios do Brasil, bem como a diminuição dos reservatórios e o desaparecimento de centenas de cursos d’águas do Planalto Central Brasileiro, torna-se necessário compreendermos a dinâmica do Planeta Terra, que se encontra acima das nossas cabeças e a dinâmica que se encontra abaixo dos nossos pés.

Não podemos ignorar que a Terra é um planeta dinâmico, e se encontra sempre em mutação, ou seja, as forças que atualmente nele atuam, são as mesmas que sempre atuaram desde os primórdios. É importante também trabalharmos com uma afirmação e uma indagação: A quantidade de água que hoje existe na Terra é a mesma que sempre existiu, pelo menos no parâmetro de tempo de 600 milhões de anos para cá. A indagação poderia seguir o seguinte caminho: A água que existe ou existiu em alguns locais da Terra pode desaparecer? Toda água hoje existente no Planeta também pode desaparecer?

Para respondermos tais indagações é necessário entendermos como já falamos, o que ocorre acima das nossas cabeças, e o que ocorre abaixo dos nossos pés. É bom também que se diga que esses fenômenos estão intimamente interligados.

Acima de nossas cabeças existe a atmosfera com diversas camadas, cada uma dessas camadas possui composições e dimensões diferenciadas. A penúltima camada é a Exosfera que se situa acima dos 500 km sobre nossas cabeças e constitui o espaço sideral. Envolvendo a Exosfera encontra-se um escudo protetor da Terra que se denomina Magnetosfera. Esse escudo protege o planeta Terra dos ventos solares. Sabe-se que o sol irradia em todas as direções um vento de alta velocidade que varia de 300 a 900 km por segundo. Se parte significativa da Magnetosfera se romper e esses ventos em sua totalidade atingirem o nosso Planeta, tudo que existe será varrido da sua superfície, incluindo a água, que vai se evaporar, além de inúmeras outra consequências. A existência da Magnetosfera depende do equilíbrio magnético da Terra, que orienta por exemplo o movimento de rotação do Planeta. Este equilíbrio, já foi minimamente afetado pelo menos por duas vezes durante a história evolutiva da Terra e causou transtornos imensuráveis. Atualmente, existem autores que afirmam que em virtude de obras monumentais na superfície da Terra, o seu equilíbrio, como também o movimento de rotação, estão sendo alterados. Segundo esses mesmos autores, fatos já estão afetando de forma crescente a Magnetosfera. Portanto uma das questões pode ser assim respondida: A água superficial da Terra incluindo os oceanos, pode sim desaparecer se a Magnetosfera se romper.

Entretanto, enquanto isso não ocorre, trataremos de fenômenos menores, como por exemplo a primeira camada da atmosfera terrestre denominada Troposfera.  

A Troposfera é a primeira camada da atmosfera que se situa dos nossos pés até uma altura média de 10 km. Atualmente esta camada é composta em média por 76% de Nitrogênio, 21% de Oxigênio, 1% de Argônio e o resto por outros componentes como: Dióxido de Carbono, vapor d’água etc. A temperatura e a composição da Troposfera variam de latitude para latitude e de altitude para altitude, conferindo a cada lugar uma característica especial.

As correntes aéreas que trazem umidade, seca, calor e frio para os continentes circulam na Troposfera e variam ciclicamente. Por exemplo, durante o último glacial, situado entre 18.000 a 13.000 anos Antes do Presente, essas correntes modificaram quase que totalmente a face do Planeta, transformando lugares úmidos e temperados em desertos e áreas desérticas em áreas úmidas.

São vários os fenômenos que alteram a circulação aérea da Troposfera, mas citaremos apenas alguns a título de exemplificação: o primeiro é a modificação da circulação das correntes marinhas, que de forma direta influenciam as correntes atmosféricas. As correntes marinhas podem modificar seu curso e temperaturas mediante causas naturais: Glaciação, aquecimento das águas oceânicas, fenômeno conhecido como El Niño ou resfriamento dessas águas, fenômeno conhecido como La Niña. Segundo dados da NASA desde quando se começou a mensuração de El Niño, 2015 foi o ano em que o fenômeno se mostrou mais intenso. Provocando chuvas torrenciais nas áreas subtropicais e estiagem prolongadas em alguns locais situados nas faixas tropicais.

Sabe-se hoje que correntes marinhas profundas e frias que deslocam a 4 km de profundidade, oriundas da Groenlândia, circulam também pelos oceanos de forma lenta e aleatória, alterando a temperatura da água oceânica por onde passam.

Ainda acima dos nossos pés, acontece um conjunto de ações antrópicas capaz de modificar drasticamente o clima local e regional. Os exemplos mais clássicos são os desmatamentos e a crescente urbanização, esta exige a pavimentação de grandes áreas impedindo a transpiração dos solos, a infiltração da água, formando ilhas de calor e zonas de baixa pressão atmosférica, que podem provocar transtornos imprevisíveis.

Mesmo em época recente, várias áreas foram afetadas por períodos de longas estiagem, que obrigaram as populações a migrarem para outros locais, deixando cidades inteiras abandonadas, o exemplo mais clássico é dos Maias no sul do México e Guatemala.

Abaixo dos nossos pés está toda uma complexa estrutura composta pelas placas tectônicas e pelas camadas internas da Terra, a começar pelo manto até o núcleo. O Manto da Terra que se situa abaixo da crosta, local caracterizado pelas placas tectônicas, é constituído de matéria fluida. No manto se encontram as plumas e as superplumas, que formam as correntes de convecção, quando essas correntes quentes ou frias se aproximam da crosta, alteram a temperatura das águas oceânicas para quente ou fria, que por sua vez influenciam as correntes marinhas, mudando a orientação e composição destas e, assim por diante.

Bem, uma das questões foi respondida a água que atualmente existe na Terra poderá um dia desaparecer do Planeta. Entretanto, com relação as questões ligadas a diminuição da vazão ou desaparecimento de cursos d’água de um local. Como isso é possível?

Num primeiro instante, torna-se necessário que sejam ressaltados alguns elementos da Hidrosfera.

A Hidrosfera é constituída por vários elementos, vapor de água, água subterrânea, água congelada nas geleiras, água dos oceanos e aquela pequena, mas importante quantidade de  água  confinada nos canais da terra, denominada águas correntes. 97, 2% da água existente no planeta Terra está nos oceanos, 2,15% está sobre as massas continentais, mas congelada em geleiras especialmente na Antártida e Groenlândia, 0,83% de toda a água se encontra nos rios, nos lagos e nos lençóis subterrâneos.

Uma outra questão importante a ser considerada, é que as correntes fluviais constituem sistemas dinâmicos que se ajustam de forma continua às mudanças naturais e às mudanças provocadas pelo homem. Mudanças climáticas afetam sem sombra de dúvidas a quantidade de água disponível. Porém, por outro lado, a pavimentação das áreas urbanas aumenta o efêmero escoamento de superfície. E, a retirada da vegetação nativa diminui drasticamente o nível dos lençóis subterrâneos, responsáveis pela perenização dos rios.

Outro elemento importante a ser considerado é o que se denomina ciclo hidrológico.

Independentemente de sua fonte, o vapor d’água sobe para atmosfera onde ocorrem processos complexos de formação de nuvens e condensação. Grande parte da precipitação mundial, 80%, cai diretamente nos oceanos e 20% das precipitações restantes caem sobre a terra, uma grande quantidade, volta para o oceano pelo escoamento. Todavia um pequena parcela dessas precipitações fica armazenada em lagos, pântanos, geleiras, ou penetra sob a superfície formando sistema de água subterrânea. Todo esse sistema é interligado, mesmo a água liberada pelas plantas através da transpiração, entram na atmosfera e todas as águas continentais, acabam voltando para o eoceno, iniciando um novo ciclo hidrológico. (continua...)

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