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Publicado em 18/01/21 às 09:11:00

Água nossa de cada dia - Parte II

Água nossa de cada dia - Parte II
Foto André Monteiro - lavoura em área de nascente

(continuação)

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa

Doutor em Antropologia / Arqueologia e Geociencias

Pesquisador do CNPq
 

A água subterrânea é um reservatório de suprimento mundial de água doce. Como todas as águas, num ciclo hidrológico, a fonte definitiva da água subterrânea provém dos oceanos, mas sua fonte imediata é a precipitação que se infiltra nos solos e penetra nos vazios desses solos, sedimentos ou rochas.

O lençol subterrâneo desempenha papel fundamental para vida dos rios. Mas, para compreender a sua formação, alguns elementos são importantes.

Parte da precipitação que cai sobre a terra evapora e parte entra nas correntes e volta para o oceano pelo escoamento superficial. O restante penetra no solo. A medida que a água se aprofunda uma parte adere ao material no qual se move e interrompe a descida. A parte que penetra e se acumula e procura preencher os espaços dos poros disponíveis. Dessa maneira são definidas duas zonas de acordo com o conteúdo dos espaços ocupados nos poros, pelo ar ou pela água: a zona de aeração e a zona de saturação. A superfície que separa as duas é o lençol freático. Uma vez saturado o lençol freático, de acordo com a porosidade das rochas penetra nestas, formando o lençol artesiano ou aquífero, a perenização dos rios depende normalmente das águas dos dois lençóis. Entretanto há locais em que os rios não são alimentados por aquíferos e somente recebem água do lençol freático. Neste caso o desmatamento pode eliminar o lençol freático, que também pode desparecer em função de uma estiagem prolongada. Quando os dois fenômenos acontecem de forma simultânea, a vida do lençol é curta e o rio pode secar imediatamente. Isto acontece por exemplo com os rios do semi-árido brasileiro e com a maior parte dos rios afluentes da margem direita do São Francisco, que só são alimentados pelo lençol freático. Alguns processos de desmatamento nesses locais, já impedem a formação de novos lençóis e os rios que ali existiam deixaram de existir para sempre.

Esta é uma forma do desaparecimento de cursos d’águas, através da intervenção humana. Outro exemplo clássico de intervenção humana desastrosa, se refere a transposição dos rios Amur-Darya e o Syr Darya, pela antiga União Soviética, para irrigar plantações de algodão.

Os dois rios citados, eram os alimentadores da bacia endorreica do Mar de Aral. Consequência: o mar praticamente secou, deixando um solo com alto índice de salinidade, que somente uma espécie vegetal ali se desenvolve, além da poeira salgada provocar doenças, incluindo o câncer em mais de 30 milhões de pessoas, sem falar nas plantações de algodão que não vingaram.

O mesmo fenômeno está acontecendo no Brasil, com a transposição do rio São Francisco.

Um outro fator que faz com que vários cursos d’água desapareçam ou tenham sua vazão extremamente diminuída refere-se a retirada sem precedentes da cobertura vegetal natural do Centro-Oeste Brasileiro. Essa vegetação é responsável pela absorção das águas das chuvas e as deposita nas bacias de sedimentação intra-cratônica, formando os aquíferos, responsáveis pela alimentação, vida e perenização de todas as águas que vertem para a bacia hidrográfica Amazônica (margem direita), para a bacia hidrográfica do São Francisco, para a bacia hidrográfica do Paraná e para outras bacias hidrográficas menores independentes como a bacia do Parnaíba, Jequitinhonha e Doce.

As águas desses aquíferos durante milhões de anos foram armazenadas nas rochas porosas dos arenitos Urucuia, Botucatu, Bauru, Poti, Aquidauana etc., que formam as bacias geológicas do Parnaíba/Maranhão e do Paraná.

Um Cráton é uma grande superfície onde ocorre em diferentes profundidades, rochas graníticas, bastante antigas de idade Pré-Cambriana. Os minerais que o compõem, estão bem fundidos, impedindo a porosidade dessas rochas. Portanto as águas que correm sobre um Cráton, são águas do lençol freático. Como já dissemos o desmatamento nestas áreas ou uma forte estiagem são fatores que exterminam com esses lençóis, impedindo o acumulo de água para alimentar o fluxo corrente. No Brasil, há duas formações cratônicas significativas. O Cráton do São Francisco que abrange quase a totalidade da sua margem direita e pequena porção da margem esquerda e o Cráton do Amazonas que abrange sua margem esquerda mergulhando pela calha até atingir a margem direita, até a altura baixa de seus afluentes.

Entre esses dois Crátons estão as diversas bacias sedimentares de idades diferentes. A maior extensão abrange as bacias geológicas do Parnaíba/Maranhão e Paraná.

Seu núcleo principal está coberto por cerrado, que é a vegetação que em função de seu sistema radicular absorve a água da chuva e a armazena nas rochas porosas dos aquíferos.

A partir de 1970 num novo modelo de organização territorial foi implantado no centro do Brasil, fato que contribuiu para que o cerrado entrasse num processo global de entropia e fosse gradativamente perdendo seus elementos essenciais, fauna, flora, cultura e inclusive suas reservas de água.

 

BIBLIOGRAFIA

 

1 WICANDER, et al – Fundamentos de Geologia – CENGAG

   Learning – 2009

2 SUGUIO, Kenitiro – A evolução geológica da Terra e a fragilidade da vida -  Ed. Edgar Blucher Ltda. Sâo Paulo – 2003

BARBOSA, Altair Sales – O piar da Juriti Pepena Ed. PUC GO

2014.

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