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Publicado em 18/02/21 às 14:21:00

Os rios do Cerrado e as consequências do desaparecimento - Parte I

Os rios do Cerrado e as consequências do desaparecimento - Parte I
Foto André Monteiro

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa

Doutor em Antropologia / Arqueologia e Geociencias
Pesquisador do CNPq

Tenho expressado nos meus escritos que o cerrado deve ser visto como um Sistema Biogeográfico, não só composto de vegetação, mas um conjunto de elementos interdependentes, cuja modificação em qualquer um desses, desencadeia modificações nos demais. A vegetação varia de um gradiente totalmente aberto, como as campinas, até ambientes sombreados com as manchas de mata, passando por uma variedade de muitas formas intermediárias, mas todas interdependentes. Essa ligação se dá também com o solo, com a água, com os animais, com a amplitude térmica diária, com a geomorfologia e assim por diante, todas são elos de uma mesma corrente. A junção de alguns desses elementos foi fator primordial de ocupação humana, desde os ancestrais indígenas até a contemporaneidade. Os lemas que guiaram a conquista do território quase sempre foram a força, a ganancia e o desrespeito ideológico, deixando sempre rastros de profunda violência e desrespeito aos elementos  componentes do sistema.

Estudos referentes ao seqüestro e fixação de dióxido de carbono por formas vegetacionais demonstram a importância e a relação direta que o Cerrado tem exercido ao longo da sua história evolutiva para o equilíbrio da vida no planeta Terra. No mesmo sentido, estudos de Geotecnia apontam o valor dos lençóis freáticos, artesianos e aqüíferos, oriundos do Cerrado, para a perenidade das principais bacias hidrográficas da América do Sul.

Entretanto, a ocupação humana desordenada, decorrente de programas de políticas públicas equivocadas, que colocam o Cerrado como grande fronteira de expansão agrícola e econômica, tem criado um panorama assustador, de dimensões nunca observadas na História da Humanidade.

Nesse contexto, o Cerrado foi e é recortado por inúmeras estradas, rios são represados, montanhas aplainadas, vegetação derrubada, rompendo o equilíbrio da cadeia alimentar e, como conseqüência, animais são levados a extinção, comunidades rurais desestruturadas de forma avassaladora e ao crescimento rápido e desordenado dos polos urbanos.

Geralmente, os responsáveis pela implantação de políticas públicas não levam em consideração o “tempo da natureza” em seus planejamentos; tampouco consideram a dinâmica da Ecologia do Cerrado. Por esta razão são incapazes de entender aspectos da sua história evolutiva, cujo tempo é medido pelos padrões estabelecidos pela Geologia, e calculado em milhares, milhões e até bilhões de anos antes do tempo presente.
(continua...)

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