Blog

Confira as notícias, novidades e curiosidades sobre turismo

Publicado em 01/03/21 às 10:13:00

Os rios do Cerrado e as consequências do desaparecimento - Parte II

Os rios do Cerrado e as consequências do desaparecimento - Parte II
Foto André Monteiro

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa

Doutor em Antropologia / Arqueologia e Geociencias
Pesquisador do CNPq

(continuação...)

Se este cenário continuar persistindo, dentro de um tempo mais curto que possamos imaginar poderemos presenciar um quadro desolador, conforme nos apontam dados e observações atuais. 

No Sistema Biogeográfico do Cerrado, as águas subterrâneas se  acumulam diferentemente nos diversos subsistemas.
Nos Subsistemas de Campos, também conhecidos pelas denominações de Chapadões ou Campinas Tabulares, o lençol de água é profundo e constitui-se no grande alimentador dos aquíferos. E, dependendo da natureza do solo, a água das chuvas que é infiltrada se desloca de forma mais ou menos rápida em direção aos aquíferos. Nos chapadões de origem lacustre, a infiltração é mais lenta e depende exclusivamente das formas vegetacionais nativas.
Nos Subsistemas de Cerrado ‘stricto sensu’ e Cerradão, situados nos interflúvios, a água da chuva, que se infiltra no solo, forma um lençol freático rico e abundante e também profundo. Grande parte das águas pluviais escorre, para o leito dos rios de acordo com a declividade dos terrenos, onde o estrato de gramíneas e arbustos nativos é denso, não há processos acentuados de ravinamentos; o contrário ocorre quando aparecem manchas que caracterizam áreas desnudadas.
Nos Cerrados e Cerradões, situados em em áreas com declives mais acentuados, não há formação de lençol freático. As águas pluviais escorrem com velocidade para o leito dos cursos d’águas.
No subsistema de Matas, o lençol freático é abundante e sub-superficial, em função do caráter ombrófilo, que diminui o impacto da insolação e da serapilheira que protege o solo. A rede hidrográfica que aí se forma é caracterizada por pequenos córregos e muito rica. Sua origem e alimentação estão na dependência direta dos lençóis freáticos aí existentes.
Nas Matas Ciliares, o panorama é similar; a diferença é que o lençol freático alimenta diretamente o curso d’água mais próximo, através do escoamento rápido.
Nas Veredas, em função do sistema radicular das plantas e do caráter do solo húmico, turfoso e às vezes argiloso, o lençol é abundante e superficial, formando pequenas lagoas e sendo responsável pelas nascentes dos cursos d’águas do cerrado, cuja morfologia se apresenta como um anfiteatro.

Uma vez retirada a cobertura vegetal nativa, em qualquer subsistema de cerrado, tem-se início um processo de desiquilíbrio, que manifesta nas formas seguintes. O primeiro lençol a secar é o que se encontra nos subsistemas de Matas, Matas Ciliares e Veredas. O tempo para a finalização deste processo, de acordo com observações, situa-se entre dois a cinco anos. Nas Veredas, por se tratar de um lençol superficial, o processo de desaparecimento será muito acelerado; talvez não chegue a alcançar o período de dois anos. Nos Capões ou manchas de matas mais homogêneas, tipo as que definiam em outros tempos o chamado Mato Grosso Goiano, a rede de drenagem caracterizada por pequenos córregos, também será extinta no prazo de dois a cinco anos; deixando nos locais, os caminhos secos, que serão avolumados por processos erosivos colossais, em cada estação chuvosa, dependendo da gênese dos solos.
Nos Cerrados e Cerradões situados nos interflúvios, os lençóis secarão no prazo máximo de cinco a oito anos. Haverá a acentuação dos processos de ravinamento, cujas erosões serão capazes de esculpir no solo sinistras cicatrizes ruiniformes.

A retirada total da cobertura vegetal afetará, também de forma decisiva, a já reduzida recarga dos aqüíferos, cujas reservas chegarão a um nível crítico, pois as águas pluviais que conseguirem penetrar através do solo serão de imediato absorvidas por estes, dado aos seus estados de aridez em função da insolação. A pouca umidade retida se evaporará de forma rápida devido às mesmas causas. No início, os problemas oriundos dessa situação tentarão ser contornados com a construção de barramentos, através de curvas de níveis e pequenos açudes, para reter as águas das chuvas. Entretanto, os ambientes que surgem desse processo, origina a argilicificação e a consequente impermeabilização do fundo dos poços, que, associada à forte insolação, resultará numa ação de nula eficácia.
(continua...)

Fale Conosco (64) 9948-5233