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Publicado em 08/04/21 às 07:26:00

Saiba mais sobre o Cerrado - Parte II

Saiba mais sobre o Cerrado - Parte II
Foto André Monteiro

Aulas sobre o Cerrado, por um dos maiores pesquisadores do bioma do mundo.

Prof. Dr. Altair Sales Barbosa

Doutor em Antropologia / Arqueologia e Geociencias
Pesquisador do CNPq

Saiba mais sobre o Cerrado - Parte II

Modernamente, a utilização do paradigma biogeográfico tem demonstrado ser um referencial de grande importância para que se possa entender o Domínio dos Cerrados, em sua globalidade. Compreendendo os diversos matizes, tanto abertos como ubrófilos, como subsistemas interatuantes e integrantes decisivos de um sistema maior, o conceito biogeográfico tem ressaltado a importância que os cerrados exercem para o equilíbrio dos demais biomas do continente, além de demonstrar que a principal característica da sua biocenose é a interdependência dos componentes aos diversos ecossistemas. Os cerrados exerceram papel fundamental na vida das populações pré-históricas que iniciaram o povoamento das áreas interioranas do continente sul-americano. Na região dos cerrados, essas populações desenvolveram importantes processos culturais que moldaram estilos de sociedades bem definidas, em que a economia de caça e coleta imprimiu modelos de organização espacial e social com características peculiares. Os processos culturais indígenas, que se seguiram a este modelo, trouxeram pouca modificação à fisionomia sócio-cultural, e embora ocorresse o advento da agricultura incipiente, exercida nas manchas de solo de boa fertilidade natural existentes no domínio dos cerrados, a caça e a coleta, em particular a vegetal, ainda constituíam fatores decisivos na economia dessas sociedades.

A partir do século XVIII, o panorama regional começou a sofrer sensíveis modificações, com o incremento da colonização que se embrenha pelo interior do País, em busca de ouro, pedras preciosas e índios escravos. Nesse contexto, e a partir dessa data, surgiram os primeiros aglomerados urbanos e a exploração mais intensa dos recursos minerais que começava a se incrementar, já provoca os primeiros sinais de degradação. Findo o ciclo da mineração, a região dos cerrados permaneceu economicamente dedicada à criação extensiva de gado e à agricultura de subsistência. Alguns desses modelos econômicos ainda subexistem em espaços localizados até os dias atuais, e outros modelos mais simples, baseados no extrativismo, são adotados por populações caboclas, habitantes atuais de espaços definidos. O isolamento que a região manteve em relação às áreas mais populosas e economicamente dinâmicas do Brasil, fez com que este quadro permanecesse basicamente inalterado, até meados da década de 1960, fato que a implantação de Brasília alterou consideravelmente, desestruturando os sistemas sociais implantados e causando entropias de ordem biológica.

O potencial agrícola que os cerrados demonstram, associado ao fato de ser uma das últimas reservas da terra capaz de suportar, de modo imediato, a produção de cereais e a formação de pastagens e ao desenvolvimento das técnicas modernas de cultivo, tem atraído recentemente grandes investimentos e criado modificações significativas do ponto de vista da infra-estrutura de suporte. O fato da não-exitência de uma política global para a agricultura tem provocado o êxodo rural e o crescimento desordenado dos núcleos urbanos. Todos esses fatores, em seu conjunto, têm provocado situações nocivas ao meio ambiente natural e social, com perspectivas preocupantes.

1 - O CERRADO COMO SISTEMA BIOGEOGRÁFÍCO

A região dos cerrados se enquadra, em sua quase totalidade, no interior da Província Zoogeográfica Cariri/Bororo de Melo-Leitão2 ou no Distrito Zoogeográfico Tropical, definido por Cabrera e Yepes3. Fitogeograficamente, porém, é tratada de forma particular, constituindo uma província própria; Província do Cerrado, definida por Cabrera e Willink.4 Da mesma forma, Rizzini,5 em sua divisão fitogeográfica do Brasil, dispensa o mesmo tratamento particularizado, incluindo-a na Subprovíncia do Planalto Central, embora seus limites não coincidam com os limites da Província de Cabrera e Willink. 

A região dos cerrados não pode ser entendida como uma unidade zoogeográfica particularizada, porque não apresenta esta característica; tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica, por não se tratar de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. O mais correto é correlacionar os diversos fatores que compõem sua biocenose e defini-la como um Sistema Biogeográfíco. Um sistema que abrange áreas planálticas é o Planalto Central Brasileiro, com altitude média de 650 metros, clima tropical subúmido de duas estações, solos variados e um quadro florístico e faunítico extremamente diversificado e interdependente. A variada fauna dos cerrados, que transita noutros domínios morfoclimáticos e fitogeográficos, por exemplo, a caatinga, tem sua maior concentração registrada nessa região ou nesse Sistema Biogeográfíco, em virtude das possibilidades alimentares que oferece durante todo ciclo anual.

Há um estrato gramíneo que sustenta uma fauna de herbívoros durante boa parte do ano, enquanto não está seco. A seguir, aparecem as flores que, durante uma determinada época, substituem como alimento as pastagens. O final das floradas coincide com o início da estação chuvosa, que faz rebrotar os pastos secos e a maturação de várias espécies frutíferas. Acompanhando os herbívoros e atrás, também, de recursos vegetais e animais, com outros hábitos, formam uma complexa cadeia. Em termos vegetais, este sistema é complexo e nunca pode ser entendido como uma unidade, pois há o predomínio do cerrado strictu sensu como paisagem vegetal, mas há também seus variados matizes, como campo e cerradão, além de formações florestadas, como matas e matas ciliares e ainda são comuns as veredas e ambientes alagadiços. As áreas florestadas são constituídas pelas matas ciliares que ocorrem nas cabeceiras dos pequenos córregos e rios, em suas margens, como também se espalham em áreas mais extensas acompanhando as manchas de solo de boa fertilidade natural. Por exemplo, as matas do rio Claro e outras vertentes do Paranaíba e o chamado “Mato Grosso de Goiás”. As veredas e ambientes alagadiços são mais abundantes, a partir do centro da área nuclear (sudoeste de Goiás), em direção norte e leste para o sul e, à medida que se aproxima do pantanal matogrossense. as veredas tendem a desaparecer, ficando apenas os ambientes alagadiços com contornos diferenciados.
(continua...)

 

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